Clube das Almas Inquietas

Bem vindo todo aquele que quer mais do que o cotidiano pode oferecer

sexta-feira, outubro 31, 2003

HISTÓRIA DE AMOR

Trânsito lento, a atenção balançando no solavanco do ônibus e o diabo do olho prestando atenção no povo que entra. Sempre fui assim, atenção em gente, que do resto me esqueço de tudo. Via um, via outro. Pela feição, por um trejeito ou um olhar, inventava uma história para o distinto. Nenhum ficava em branco. Melhor assim, o tempo voa e a gente se diverte.
Lembro que primeiro veio o homem. Depois ela. No começo, nem se olhavam. Mas devia ter imã na alma dos dois. Positivo e negativo, um falante, a outra quieta. Os dois naquela idade em que não se abre guarda logo. Muita coisa vivida, tantas, que tem de acostumar primeiro para deixar chegar perto. No começo, desconfia mesmo, imagine, dar garantia, assim, de cara? Nananinanã, tem de vir de mansinho e ir se aboletando pelas beiras. Mas parecia que ia mesmo se chegar.
O que chegou foi o meu destino e fui embora do ônibus.
Não sei como a história se desenrolou, mas a que eu inventei foi linda.

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quinta-feira, outubro 30, 2003

ALMAS GÊMEAS

Uma moça jovem, bonita, passa o fim de semana com o namorado. Ele precisa trabalhar um pouco em seu computador. Ela, carinhosa, solícita, vai acarinhá-lo de quando em quando.

Numa dessas ocasiões, passa os olhos na tela do micro, enquanto o namorado procura um endereço no histórico. Meio distraída, olha os sítios visitados, até que a atenção se fixa num determinado endereço: Alma Gêmea. O nome provoca um sinal de alerta imediato, os pensamentos em turbilhão: - O que é isso? Não é um sítio de namoro? Deve ter sido por curiosidade... e se não for... para que ir até lá... eu já fui a muito sítio só de curiosa... vou perguntar... não vou... que bobeira... parece controle... cachorrão... não sou ciumenta... mas aquele bilhete... deixa... esquece... alma gêmea?...

Assim que ela volta para casa, corre para seu computador e imediatamente digita o tal endereço. É um endereço de procura de relacionamentos. Digita a busca de perfis. Responde a cada quesito, solicitando as características do namorado.

Já dizia minha avó: “- Quem procura, acha!” Ela achou. Tava lá. Tudinho. Direitinho. Procurando um relacionamento duradouro. Mas ela não era o relacionamento duradouro? Não eram as almas gêmeas do outro?

O golpe final, que acrescentou o insulto à injúria, foi a foto. Uma foto dos dois, linda, linda. Que ele escaneou, cortando a imagem dela. Deixando só a dele, em busca de sua alma gêmea, que não era ela.

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O QUE É PRECISO?

Parte em mim tem horror a se expor, e há partes que desejam exatamente isso. Parte deseja ser encontrada, parte deseja permanecer escondida.
Viver em paradoxos. Há outros modos?
Sempre tive a sensação de que escrever era algo que existia independente de mim. Ao mesmo tempo, não conseguia imaginar ser possível viver sem escrever. Sempre escrevi porque precisava, como se escrever fosse o meio do caminho entre eu e o mundo. Como se fosse pela escrita que eu pudesse me encontrar com as pessoas.
Fiquei mais de 40 dias sem escrever nada. Um período sabático. Palavrinha misteriosa, quase herege, vem de shabbath, o período de recolhimento semanal dos judeus. Poder descobrir ou redescobrir caminhos, lembrar-me de quem eu era e o que eu queria.
Parei de escrever. Não consegui escrever. Não tinha vontade de escrever, depois. Larguei tudo.Viajei para bem longe, encontrei antigos e novos amigos, falei com conhecidos e desconhecidos, abracei, chorei, lembrei e amei.
Escrever não está no meio do caminho entre o eu e o mundo. Entre eu e o mundo o que há é a vida que eu vivo.
Descobri, no meu sabático, que não preciso escrever para viver. Preciso viver para escrever.
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quarta-feira, outubro 29, 2003

A BUSCA DE FLORBELA

"Um dia, o destino, trôpego velho de cabelo cor da neve, deu-me uns sapatos e disse-me:
-Aqui tens estes sapatos de ferros, calça-os e caminha...Caminha sempre sem descanso(...)Não pares nunca! Um dia, os sapatos hão de romper-se; deter-te-ás então.É que terás encontrado, enfim, os olhos perturbadores e profundos, a boca embriagante e fatal que há de prender-te para todo o sempre!"
Florbela escreveu este conto em 1916 e diz, adiante, que calçou os sapatos e caminhou e caminhou. O coração, ficou aos pedaços, pelo caminho. Os sapatos, ainda nos pés, e os olhos perturbadores nunca encontrados.
Talvez seja este o destino das almas inquietas: a busca incessante de um encontro pleno que só pode ser pleno na fantasia que impele a busca.

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terça-feira, outubro 28, 2003

A RUA DE MINHA INFÂNCIA

Volto à rua de minha infância numa tarde de domingo e chuva. Madeleines tropicais tem corpos e falam: O aniversário de uma tia trouxe de volta familiares não mais familiares que se cumprimentam efusivos, antigos vizinhos a trocar mentiras gentis, velhos amigos se abraçam, se olham e se reconhecem.
Os nomes, os rostos, parecem saídos de um livro infantil, atualizados por um mago gozador, que vai pondo rugas em todos, vincando expressões, encurvando e diminuindo corpos, ao passo que eu mesma, numa mágica inversa, rejuvenescida, volto a ser a menina de 30 anos atrás.
A rua de minha infância é aquela das férias, quando o verão se aproximava e eu podia, finalmente, atravessar o portão, brincar com as outras crianças e jogar queimado e pique esconde. Eu sabia quando o verão estava para chegar pelo anúncio das mariposas e cupins que surgiam do nada, aos borbotões, dançando a ave maria em volta dos postes de luz, entrando pelas casas, ensandecidos com as lâmpadas e luzes acesas ao anoitecer.
Corríamos pela casa, fechando janelas e portas, numa tentativa vã de deixar de fora os danados que largavam suas asas e se multiplicavam, caminhando sobre móveis, comidas, chão, paredes, entrando até em algum nariz ou boca descuidadamente aberto.
A família a espalhar bacias e panelas, cheios de águas, postados em embaixo de algumas luzes, para que, ao ver a luz refletida na água, os cupins viessem ali se afogar.
Empolgada e imbuída do mesmo espírito devocional de Torquemada, eu movia a bacia para mais perto das luzes, provocando, iludindo, forçando mesmo os cupins mais cautelosos e sensatos a se afogar na água, já coalhada de corpos.
Minha rua, proibida o ano todo, se oferecia a mim, finalmente. Como se libertando minha crueldade eu antevisse a liberdade maior das férias, do verão e da rua.
Ao rever aquelas pessoas, redescubro meu olhar de criança, e me surpreendo ao vê-los envelhecidos. Percebo que eu, também, envelheci. Encontro, com exatidão, não sei se com prazer, meu lugar no tempo. Mas, percebo também, que meu anseio de liberdade se manteve comigo.

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